Solenidade da Epifania Pe. José de Castro Oliveira pe.castro@espiritanos.orgO texto de Mateus priva-nos de vários pormenores, que em muito satisfariam a nossa curiosidade sobre os Reis Magos e que, pelo menos em parte, a tradição se encarregou de fornecer: omite-nos tudo sobre a sua identidade, a(s) localidade(s) donde partiram, as distâncias percorridas, o tempo desta longa viagem e algumas das muitas peripécias, que sempre acontecem e que não apenas dão colorido ao tempo, como também mais tarde gostamos de recordar...
Ao invés, o evangelista só nos fornece o pormenor do regresso por caminho diferente e, aparentemente, por motivos estratégicos: prolongar a expectativa de Herodes, permitindo assim que recém-nascido e sua mãe se fortaleçam um pouco mais, para poderem enfrentar com mais segurança as agruras da viagem rumo às terras da emigração.
Creio não atraiçoar S. Mateus se afirmar que as suas intenções são bem outras. Ele quer dizer-nos que encontrar-se com Cristo provoca necessariamente mudanças em todos: desde os Pastores, que vieram de perto, até aos sábios e ricos Reis Magos, que vieram de muito mais longe.
Com efeito, encontrar-se com Cristo leva necessariamente a evitar os caminhos de Herodes, isto é, da hipocrisia e do medo, geradores da inveja que corrói e destrói.
Mas são também de evitar os caminhos da Jerusalém às escuras, sem estrela e sem luz. Mergulhada no materialismo do dia-a-dia, tinha-se alheado dos sinais anunciadores da proximidade do Messias. Jerusaléns como as do tempo do nascimento de Jesus pouco ou nada têm a ver com a Jerusalém anunciada pelo profeta Isaías: “levanta-te e resplandece... sobre ti levanta-se o Senhor... ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração”!
Por isso, encontrar-se com Cristo leva também necessariamente a abandonar os caminhos de um cristianismo medíocre, desenxabido, meramente formalista e, por isso, sem alegria, sem alma, sem garra e sem paixão, isto é, sem empenho transformador a todos os níveis (pessoal, familiar, social, missionário...). Mergulhados e mergulhadas num Natal de consumismo e de tradição, também muitos de nós ficariam surpreendidos e perturbados se alguém nos perguntasse: onde está o vosso Menino Jesus, que acaba de nascer?
Percebemos então que “regressar por outro caminho” tem mesmo a ver com cada um e cada uma de nós e que tem mais a ver com a nossa mudança interior do que com o recurso a percursos alternativos. A mudança tem de acontecer dentro de nós, de dentro para fora e não ao contrário.
Se calhar, vinha mesmo a propósito um outro Natal e já! Mas, Natais destes podem acontecer a cada momento, sendo apenas necessário viajar até dentro de nós mesmos! Pois bem: a gruta de Belém está sempre aí, à nossa disposição, para dela nos aproximarmos como os Pastores e os Reis Magos, em atitude de adoração, isto é, de abertura ao único PRESENTE que pode encher as nossas vidas.
O ouro, incenso e mirra que Jesus espera de cada um e cada uma de nós é deixarmo-nos inundar da sua luz, é deixarmo-nos guiar pela sua estrela para trilharmos caminhos de verdade, de fraternidade, de paz!
. Publicado em www.espiritanos.org a 12/31/2009 10:41:05 AM.
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